quarta-feira

2016

Blackblock siamês da sétima série, narinas bufando hormônios e gasolina, El Pájaro de Fuego Molotov levanta-se em fino voo de suas mãos castanhas e pousa elegantemente sobre a tropa que rugia de ódio & esvaziamento de sentidos
Um garoto Unseelie Fairy de cabelos cacheados se alegra com o fogo e exibe um forte e vívido caralho humano às senhoras da Santa Medalha que acompanhavam a Guarda Militar do Retorno do Mesmo rezando rosários de lágrimas vestidas de negro & torpor
Sete garotas negras, mãos dadas em ciranda, mamas túrgidas de adolescência desnudadas, entoam nomes de princesas africanas
As ruas são campos de batalha e os anjos da morte tem sede de destruição
A confraria mística Liberação Monstruosa apoia os adolescentes e invoca demônios antigos para cegar e confundir os policiais
Heyokas tiram bombas de paradoxo de seus próprios cus e lançam-nas contra a brigada anti-revolucionária
O feiticeiro de setenta e sete nomes surge do boeiro da avenida, seu corpo da idade dos cristais do cerrado aturde os fardados, ele quebra o silêncio que guardara por toda uma era e lança maldições incompreensíveis com hálito de cadaverina
O corpo militar se dissolve atacado por todos os lados por vedetes, crianças, bruxas & palhaços...
As agências bancárias são incendiadas
Os órgãos públicos são transformados em teatro de bacantes
Tudo se torna monstruoso e alegre: o inevitável brotou repentinamente como um cogumelo depois da chuva

Núpcias Anti-natureza

Nós não fomos casados porque a vida é orgânica.
Por alguma misericórdia de vós, não fomos casados.
Ainda não fomos casados para evitar o cataclismo.
Para que não fosseis o zero, a urdidura permissiva da rede vindoura, fagocitado na festa natalícia do possível rompendo o real, não fomos casados.
Mas há que ela, a Rainha Diaba das coisas sem propósito, ainda dorme seu sono prenhe de ensonhos escandalosos, absais, e, na articulação mais improvável, tênue, inventa ainda, de insuspeitável modo, a inevitável rachadura que preenche de explosão de ótimos o planeta que, então poeira de luz no mais distante negrume da pele sideral, se tornará outro.
Inútil vos precaverdes disso.

quinta-feira

gosto da sua mente & pelos
dos teus olhos perdidos no invisível
do teu silêncio de estrela
de tuas ausências de fones de ouvido e tênis surrado
da tua solidão
dos teus pelos
teus pelos
teus pelos & mente
& dos teus gostos felinófilos
gosto

quarta-feira

Vejo, ainda que verde sobre verde,
peluda, descrevendo senoidais sobre a fosforescência clórica da planta,
enquanto anda sob prateada, difusa luz, saturnina de grossa nuvem,
na noite, lenta, a lagarta.

Vejo porque vejo quando olho:
o que rebrilha de prata
e o que se escurece como que de plúmbeas plumas adornado,
enfeitado de apagamentos, abscondido no cinzento, distintos, vejo.

E tanta, quanta fibra tecendo de parte à parte, com seus lúmens, a realidade.

quinta-feira

sementeiro

gosto de jogar bitucas no chão

e recolher aquelas, depois, maduras

no chão, curvado,

a observar as coisas bonitas, pequenas

domingo

fazer pão para impedir a petrificação do real por leis morais
fazer pão para mergulhar profundamente na imanência: para fazer pão
fumar silenciosamente e deixar venenos transcendentes dissolverem-se no ar
fumar silenciosamente
varrer o chão de casa para estar livre da captura dos ladrões de impermanência
fumar silenciosamente
então, aceitar a memória sem medo de ser tragado por ela
lembrar-se de que amou o mistério na forma de um róseo talibã e que o mistério te amou desde o negrum dos olhos dele
cozer aromas n'água & bebê-los
desprezar vampiros, exorcizá-los todos
dançar-se tão curvadamente que Inlá se apiede de sua cabeça e aceite apoiá-la
dançar-se
picar salsinha atravessado de paradoxo: de seres e não-seres num só bloco atemporal
estar completamente apaixonado, arrebatado pelas pequenas coisas
& esperar o retorno do nunca igual, apaixonadamente

terça-feira

não por vítreas clarezas
& as durezas que as fazem
não pela corôa, o cetro, a espada
não pela filiação, maternidade ou zelos que tais
não pela inteligência
não pela arritmia implícita dos viventes
nem pelo amor, nem pelo gozo, nem pela dor:
só engendro um eu pelo fascínio da borda

sábado

saídas

vou sussurrar a palavra mágica "saídas" até a dissolução completa das obstruções neuróticas
vou entoar cânticos de radical afirmação da vida
vou promulgar vitalismos assassinos
& repousar na velocidade absoluta onde nada é capturado
vou me banhar da Vida intolerável para os organismos
& multiplicar as linhas de fuga para todos & tudo
vou descobrir no som das letras V e S um dharma secreto que dissolve obstáculos
eu que venho para beneficiar os seres, juro jamais fugir da possibilidade de fuga

terça-feira

vinagre no DF, de um carente carro que tosse, as casas todas iguais. Jack amigo meu passo No Amor e com Chagdud Khadro no Rigdjed Ling, 19h.

sábado

forianópolis, madrugada

eu lambi a cocaína de meu amigo sobre a carteira negra na obscura noite antes que eles chegassem
& estive nas mãos da polícia que nos ameaçava com filigranas legais
eu estive na boca da grande babilônia
um cigarro na algazarra do túnel mesmo de madrugada a ele que ecoou cantando o inalcançável
eu caí bêbado e acelerado no centro da perdição dela, Babilônia de amores tintos
eu me encontrei com ele, senhor dos caminhos, negro homem atravessado de potências antigas
           fora forte
           o tenho visto
           altivo altíssimo homem negro de musculatura rara
           assustador já fora
           ora o magro balbuciante permeabilíssimo corpo loquaz de linguagens proto&desumana
mais um cigarro
o incompreensível dito me exigia um outro & uma benção
laroyê!
eu pedi licença às prostitutas e aos homens cucetas tornados putas travestidas
eu a vi descendo do carro e desnudando-se arrumando o cu para a próxima investida
eu estive entre os seres
& os amei

domingo

minha senha: walt whitman

sempre quis abraçá-lo e dormir em seu peito e chamá-lo de avô
eu teria uma barba que é a tua barba
os meus olhos também seriam essa nuvem, esse poço
eu deitaria na grama e contemplaria os céus como quem compreende os céus
seria suave e teria epifanias sexuais com garotos tão jovens e não lhes roubaria o viço, nem corromperia a inocência de seus corpos
eu seria inocente & sábio e cultivaria rosas, hidrângeas e lilases
haveria musgos nas pedras perenemente, apesar do sol que sempre seria amarelo
fumaríamos, avô, nossos cachimbos imensos e a fumaça contaria-nos tudo o que nossa linhagem viveu
eu compreenderia a fumaça e estaria sempre envolto em uma atmosfera de melancolia livre de tristezas
eu seria alegre & sóbrio, meus gestos seriam discretos e profundos e nunca tropeçaria em nada
não haveria obstáculos para os afetos
& o mundo e eu nos afetaríamos delicadamente
gratuitamente

sexta-feira

quanto mais o amor me faz o espírito da primavera
que quer e transfigura a coisa amada na sakura branca
muito mais o meu tesão deve ser intenso & animal

meu pau duro me protege da morte:
a extrema concentração genital, o desejo de carnes,
fluidos, cheiros, gostos,
o imperativo táctil que o tesão desperta
é como uma canção de ninar em deleuze
meu pau duro é meu ritornelo
que sendo câmara, me retém,
me mantém coeso
impede que eu me derrame tão último, tão completamente
que de mim não haveria nada
que este corpo, se corpo houvesse, quedaria catatônico,
impotente
e o meu amado seria fulminado de espanto
consumido por sarça ardente
petrificar-se-ia ou seguiria tresloucado
porque veria o algo
o estranhíssimo
o deus

quarta-feira

quando senti o cheiro do meu bem
naquele instante exato em que minha face destra
sobre o sinistro pulsante lado do peito se deitava
quando a pele roçada exilou-me em cósmico silêncio
e tudo que eu via era tênue curva e mamilo róseo
e pensar pensamento algum já não pensava
quando o cheiro já me havia arrebatado
aí no extremo foi que soube como se houvera útero:
amar é devir mulher

segunda-feira

poema de amor

Para Danilo

súbito
como se borrasse mil corpos de deleites emprestados
& noites de frágeis abundantes prazeres fáceis
como se revelasse mórbido ou pouco o incontinenti gozo dos meus dias
como surgido das águas
como espuma & raio
meu amor repentino e certeiro
meu coração por inteiro entregue ao guerrilheiro unicórnio
róseo talibã amoroso
& seus pelos de minha mémória, ó Hassan,
que em terras altas a sudoeste do cáspio
tocou-me de tal maneira
& tão fundo em meu corpo lançou o seu amor
que ainda agora choro sua morte
que agora mesmo choro o reencontro
que em qualquer instante em que veja os seus olhos
os mesmos olhos de oriente montanhoso
eu me derreto e resta pouco de mim, resta nada:
resta amor & nada

sábado

agradeço a Vinícius na cidade de Santos
a solução de claro enigma

teu corpo magro & branco
o torso em anelar serpentina contração
o peito indestacável de teu tronco
& grandiosa pica em vertical ereção
sedento cu de menino
o completamente masculino
desejoso de preenchimentos
os vinte anos de vida num instante
                                   macho & fêmeo
trouxeram-me a súbita certeza
a clareza na mente repentinamente consciente:

ou me ilumino em pleno gozo hebefilista & pederasta
ou para sempre estarei preso a esse mistério

quinta-feira

recado pra Maria Octavia




é preciso pichar alegria na cara da impotência
é preciso fazer um padre maldito asfixiador de vida gozar até o delirium absoluto
é preciso fazer com que todos os fascistas derretam num ato de beleza irrefreável
é preciso dilapidar as mórbidas igrejas com a sensualidade de um deus adolescente
é preciso um devir-mulher no corpo do maldito macho scum
é preciso escrever a palavra clitóris em letras garrafais no teto da capela sistina
é preciso bailar com sapatilhas vermelhas na rampa do palácio do planalto
é preciso um sexo libérrimo, alegre & audaz, que mate tudo que já está morto

quarta-feira

o verso elegante
ainda que seja brilhante
e transbordante de doce alegria
continua sendo
a porra de um verso elegante

a jornalista da televisão

em rede nacional é conhecedora das causas das coisas

as mesmas que Spinoza não ousara perscrutar

sábado

nirmanakaya

a Allen Ginsberg

bodhisatva, sim
de mãos de lâmina
delicados pés &
mente libertária
bodhisatva, sim
da incessante atividade
da liberação, bodhisatva
sim, bailarino poeta
cantor de libertinos
bodhisatva, sim
atuando incansável
o buddha que é ele

Grande Liberação dos Corpos

domingo

     se pudesse escreveria a suprema delicadeza
     escreveria ela mesma
     e cada palavra que eu diria seria suprema delicadeza no mesmo instante em que dizia
     e quando qual se leria, seria ainda suprema delicadeza naqueloutro instante em que lia
     não haveria intermédios
     o escrito, o lido e o vivido seriam, de tão idênticos, indistinguidos
     nesse dia, direi, se fez poesia

sábado

     Lucas,
     não é que odeie todas as bichas que querem fazer édipo, realizar papai mamãe com o rabo
     não que eu queira assa-las todas em espetos infernais e grampear seus olhos e obturar seus dentes sem anestesia
     não é que pretenda afundar em uma grande tina de merda todos os viados que fazem de sua grande luta política a legalização do casamento gay
     admito, Luquinha, tudo muito legítimo...
     mas esses não são, não podem ser, não querem ser, não são

          bichas libérrimas
          meninos meninas de túrgidas picas
          cus abissais por onde corre minha mão, meu pau, minha língua e -- ah, suprema memória de ter sido possível -- minha barbuda cara inteira dentro
          corpos inventados em delírio & aflição
          maldição insuportável contra a falocracia e seus desgraçados machos scum
          plumas delicadas & afiado aço contra a rudeza do jeans, contra a cabeça de Deus
          eficaz destruição do pilar da sagrada família e as neuroses gosmentas da confraria reacionária unidos-em-série

     Lucas,
     viados edipianos são os agentes de linha de frente do aparelho de captura do normal, estatal, civilizado
     o homossexualismo como uma bestialidade anti-tradição é uma máquina de guerra nômade desterritorializante, pacto demoníaco, grande anomalia testemunha da baixeza da covardia do macho

segunda-feira

de tres poetas místicos com sexos túrgidos

me deu saudade dela, Adélia

eu a amei de um jeito louco

foi anos atrás

mais de dez ou uns quinze

amei de rolar lágrimas

-- a tristeza de ser eu --

tristeza funda de tesão e santidade

tristeza dela ser eu

de também ver meu marido limpar o peixe

e amar a coisa prateada no ar

e também fui catequista

sim, fui Adélia

eu era ela

num lugar em mim a encontrei quando li

Ó Deus, não me humilhe mais
com esta coceira no púbis.

ou

Só melhoro quando chove.

ou

Da vida quero a paixão.

ou

Ninguém me tortura, pois desmaio antes.

ou a que gosta um meu amor

Os moços tão bonitos me doem,
impertinentes como limões novos.

e a cultivei

e fui

e assim passou, sem passar

porque eu Adélia, visitada, conhecida, fui para sempre cartografada no Atlas das afecções minhas

e assim, digamos, passou

virei poeta vociferante

fui tomado pelo espírito de paixões desconhecidas

acontecimentos anais

e uma série longa de visões alucinógenas, claras como a luz do dia branco

nesse tempo tornei-me Ginsberg

e o espírito dele desceu sobre mim

e fui habitado

e meus olhos se tornaram aqueles mesmos olhos místicos & gays de Nova Iorque até Os Anjos

sim, mesmo até os anjos eu sou Allen

quinta-feira

no corpo do menino mora uma flor

não me cansei desse mistério

ainda que o tenha visitado noites sem fim

não me cansei desse mistério

não o conheço

permanece meu espanto a cara de espanto do menino alargado

não, eu não conheço esse mistério

e mesmo quando o rosto imberbe sorri com a feição antiga da ninfa do Peneu que na Grécia bebi sedento

mesmo quando vejo a mesma face            outra vez

esse sorriso-convite sacríligo & sagrado de inocência perversa

esses lábios abertos esses olhos brilhantes de felino noturno

esse mesmo antigo infinitamente visto sorriso-convite que termina num "ah" longo que é de gozo mais do que de dor e é de dor e nunca conheço como se insinua do cu à boca num instante e os olhos giram e a noite é a mesma noite eterna de esforços atléticos, delicadeza, aromas mais rubros que mucosas

e os olhos

e os gemidos

os mesmos, exatamente os mesmos infinitamente visitados

e teu prêmio branco líquido & abundante

no rosto como copa aberta a boca e lustral derrame

infinitamente visitados

e eu não conheço

o semprevisto

e eu não conheço

o semprenovo olho do gozo

segunda-feira

rubro Aton no ocidente
a foggy day por billie holiday
andorinhões gritando metal
tabaco até vomitar & sonhar
co´as mamas altas da menina
correndo sorrindo música
& fumaça

sexta-feira

new york, paris, sevilla, lima, gibraltar
contanto que peregrino
eu aceito o meu destino

quinta-feira

teonanacatl

tornar-se fêmeo
devir mulher até não só mulher
mas matriz micrônica fixa roxo-negra
de delírio, sonho & vastidão

sexta-feira

em minha próxima vida serei adonis
atingirei a iluminação aos dezessete
fornicarei com as cem esposas
& os vinte sete eunucos da corte celestial
serei o corpo de explendor de diamante
do amor
e todos que me virem
ou sentirem o meu cheiro
despertarão na Terra Pura do Deleite da Alegria
e aqueles para quem eu sorrir
entrarão em transe
entrarão em meu coração
compreenderão a indistinção dos seres
porque aqueles para quem eu sorrir
indistinguir-se-ão de mim
ardentes em meu coração

domingo

eu vi a noite nascer dos cabelos dela e escorrer feito água sobre a terra e os corredores infinitos, tintos & negros, como o vinho português dos meus delírios (outrora esquecidos) por Camila

e outra vez eu me perdi nos descaminhos (corredores, corredores como em Kafka)

como as prisões que são melhores que a santidade ou carcereiros mais libertadores que os piedosos chupadores padres

não posso falhar no meu amor

ou sonhar com o toque

ou pressentir o cheiro

(o cheiro de Camila, mais negro do que doce)

mas não posso querer morder a pera ou beber do vinho

a carne branca está vetada (por meu narcisismo, Camila?)

mas por teu olhar me faço humilde & manso & servil um instante antes de tornar-me um bicho de três patas, nenhuma mente

& lustroso membro

sexta-feira

de como Nut, deusa arco-celeste, está envolvida em secreta prática e de qual sua finalidade ou de como o cosmo é um exercício de auto-cuidado

quando assisti à autofelação de Lucas
nenhuma baixeza estava presente
não era engraçado nem era grosseiro
não era violento nem tinha malícia

quando assisti à autofelação de Lucas
vi delicadeza & gentileza
o rosto roçou suavemente a própria glande
o nariz tocou-lhe o membro vagarosamente
e só então se abriu a boca imensa
                                           imensa como seu vergão
(a boca de Lucas, a negra e arqueada noite)

quando assisti à autofelação de Lucas
algo ocorreu dentro de mim para além da excitação

                   era o novo outra vez

não uma ruptura, mas uma dobra que se estende
a compreensão que Horus deus no Egito conheceu:

Lucas alegrava as estrelas
& alimentava-as

quinta-feira

quero que o girassol invada os prédios os apartamentos os automóveis as sub-prefeituras o departamento de água e esgoto a companhia de telégrafos S.A desde o século XIX o navio cargueiro o central park o shoping center iguatemi a fábrica de concreto a confraria reacionária unidos-em-série o éter a GlaxoSmithKline a polícia militar paulista

& o seu coração

in extremis

possamos nós sermos felizes
ainda que nos falte artérias
mesmo que não tenhamos rins

segunda-feira

quando descobri victor heringer

quando ouvi a voz de victor recitando (para mim) do outro lado do fone de ouvido
desejei que esse bandeira
esse poeta-cronista de voz artística
recitasse mais de perto, ao pé do ouvido,
umas besteiras
e fiz uns votos, uns rezos

          impecáveis senhores do karma,
          ó meu bom jesus,
          nossa senhora da boa foda,
          possa esse poeta ser bonito
          queira deus que seja gay!

vesti-me então de esperas
engendrando nestas letras
a delicadeza de um encontro
algum constrangimento e uns risos

quarta-feira

porque vi um profeta no poeta

por estares inscrito nas numeridades
isso que sentes quando choras
é memória

por seres um de nós
por teres estado lá
por teres visto o que vimos
(martíros, deleites)
porque ou amas ou morres
é que choras memórias

por teres sido chamado pelo nome
porque deves ser santo
mesmo quando estás de quatro e expões a flor do teu segredo
porque sabes disso
porque não esqueces
porque cantas profecias quando te embriagas
porque todos sabem
porque todos vêem
e os ateus te olham com desconfiança
porque teus amigos te chamam de pomba
por ser     (miserere miserere nobis)     inaceitável  a leveza desse fardo
é que choras tuas memórias
chuva de alegria:
crianças gritando
correndo das águas

quinta-feira

deixar que a flor mais pura manifeste seu propósito
cultivar um campo de ternura
deitar-se nu com seu amigo
descobrir estrelas em suas pintas
ensinar que aquelas que o adornam
                      são o cruzeiro do sul
sentir seu cheiro & gostar do cheiro
reparar no som que a pele à beira do silêncio contra a pele faz
dar chance ao silêncio e sorrir
eroticamente & liberto da primazia genital

primeiro canto desesperado de amor a Deus

devo ser louco ou ser mulher
para te amar assim
ou outra coisa absurda
ultra-violeta
sim, devo ser mulher
signo de terra
submissa mais que os anjos
os santos
os fatalistas
tenho mesmo que ter útero
para te amar assim
que não te alcanço nem os joelhos
mas me deleito na simples idéia
, Deus, de teus artelhos

terça-feira

Wu Wei

.
ocupado com as dez mil coisas
sobre o trono de esterco e palha
mestre Lao faz nada

..
desocupado de céu e terra
munindo vasoura e riso
mestre Lao varre o ócio

...
pés, tronco, mãos exatos,
arqueado & delicado & firme,
dançando, mestre Lao descansa

sábado

Sambhogakaya

a palavra: hóspede da realidade
mais recente que do vento
a areia é cliente

a palavra: som escuro
e rouco como as coisas que não tem depois

a palavra: iridescência
impermanente & vazia

                                  pronunciada, entanto,
                                  (performática)
                                  mãe de dez mil coisas em cada um
                                  dos dez mil mundos

a palavra (útero) pare a realidade
                                    a realidade: o corpo de desfrute da vacuidade

terça-feira

flor da montanha

o bihkkhu vestido de açafrão

longos olhos semicerrados nevados ovalados sonhados por mais existências humanas que as areias do grande Ganges

o corpo quase roliço forte firme tônico de juventude e moreno

castanho ocre indígena vermelho mais hopi que um hopi de cidade mais veloz que o appaloosa das planícies

o bihkkhu suave belo desejável como a brisa no verão a pêra o sonho encantado das encarnações beatíficas a moça de cachos dourados coxas ardentes paulinho o trombadinha

sob o manto açafrão lustrosa aromosa sandalizada resguardada e pronta a oferta insuspeitável

o inesperado crescido em minha mão

flor da montanha

rígido vergão jovem & santo

eu aceito teus votos

nenhuma culpa

suprema boa fortuna:

o sexo vazio pelos três kayas

domingo

uma coisa pra dizer
são francisco é perto do espírito
santo encontro nem seria milagre
mesmo por graça teus olhos lembrar
deles num momento de véspera é sinal
ter a cor e desejar o cheiro
do corpo santo do espírito
0
não é hora de escrever um poema
escrevê-lo seria fórceps
metal contra o feto
luar de meio-dia
aracuãs aos bandos gritando a claridade quando no céu encobre o veludo negro (a pele da mãe arqueada)
1
propósitos insossos escorrendo nas paredes dos cafés da lagoa da conceição
caio fernando abreu nas mãos, hilda hilst na cabeça
uma transa incompleta com o rapaz da cidade da palhoça
sessões de sadismo & delicadesa com o ente da pele alva
um sol de sete brilhos refletido nas águas dela
18 anos, olhar do estrelado, asas nos pés, trombeta na mão:
uma lista anuncia meu fim

quinta-feira

domingo

quando a pomba explodiu na sua cara
beatificou-se
em silêncio interior profundo
quedou-se mudo por meia hora
enquanto o outro
no ofício de ser macho
derramado
a exemplo de Jeová nosso pai
chafurdou-se no sono do ócio do sétimo dia

terça-feira

plantar um girassol em ouro preto

vou te dar de presente a surpresa do meu rosto súbito como o beija-flor no centro de minas gerais ou o amor

e não vou nem querer explicar ou conhecer só entregar um beijo molhado de marés e imaginações de quebrar padrões de criar caso com namorados flertes & afins e vou chegar sem avisar mais subitâneo que um aneurisma cerebral

vou beijar

não me importa se você vai estar de mãos dadas de cara limpa ou chapada agudo & crente como São João da Cruz ou obtuso materialista feito um burguês ensebado vou começar por seus olhos e só terminarei quando as estrelas descerem enciumadas do carretel celestial

vou começar por seus olhos e estudar cada pelo da epiderme castanha

vou descansar ao seu lado ficar em silêncio e será confortável estar em silêncio ao seu lado no deserto da noite e quando o silêncio for mais certo que uma aranha do sonhar e tiver criado pele & patas ser espesso como meu próprio sêmen ousarei rompê-lo

para ti sob as estrelas diante do fogo dos nossos corações vou cantar as canções de poder que em jornadas xamânicas destrinchei meus melhores cantos meus gemidos para o grande espírito meus gemidos para o teu espírito teus gemidos para o nosso espírito nossos gemidos para o grande espírito

a onça pintada em carne & espírito nos sondará

haverá um risco de morte & uma bênção de ousadia silêncio alegria

o sol quererá nos ver e o dia virá testemunhar os corpos lambuzados pela eterna verdade
saudade estelar
e a fé absurda, a certeza
de no meu próprio colo descansar

domingo

acaso também aqui é o mar
sob chuva espessa o dia é sem tintas
(trezentos e quarenta e duas tonalidades de chumbo por metro quadrado)
é pesado o cargueiro que atraca
Gearbulk trinta e seis mil toneladas
o menino vestido de borracha é bem leve
Samantabhadra em meu peito é azul imaterial & constante
a pele do médico de orelha decepada olorífica memória
um palmo acima sobre minha cabeça Amitabha vermelho se expande
não se limita às peles que toco
aos cargueiros
às trezentas tintas do chumbo
aos meninos de borracha
a Samantabhadra
à minha cabeça, luz ilimitada

quarta-feira

giravez, outro sol

eu sou um girassol

você é um girassol absurdo

inconveniente amarelo heliotrópico miraluzente

eu, você, um girassol

nós somos um girassol de Ginsberg no fim da tarde à beira da locomotiva cinza

eu, você

nós somos o girassol de verdade

amarelo

tudo mais é mentira

terça-feira

satori

súbito eclode
de uma barata
um Buddha

domingo

a verdade é amarela tudo mais furta-cor

houve que o dia raiou amarelo
e aquela certeza simples da potência dos corpos
o girassol é amarelo tudo mais é mentira
eu não sou mentira sou girassol
Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos nossa horrorosa locomotiva sem imagem empoeirada e arrebentada, por dentro somos todos girassóis maravilhosos, nós somos abençoados por nosso próprio sêmem & dourados corpos peludos e nus da realização crescendo dentro dos loucos girassóis negros e formais ao pôr do sol, espreitados por nossos olhos à sombra da louca locomotiva do cais na visão do poente de latarias e colinas de Frisco sentados ao anoitecer. (Ginsberg&Willer)
dois goles - apenas dois goles - de sofrimento me trouxeram a grande alegria
porque sabia dos amores tintos
da rubrescência das mucosas esfoladas por muito amor
dos salões perfumados de Santa Maria
do girassol da verdade

dois corpos amei sem tocar
entre tantos que toquei sem amar
o monstro terra & o girassol
(as pernas peludas de Jesus)
todos magros e morenos
o girassaol é amarelo a terra é vermelha no planeta azul
                                  eu te amo
isso é verdade

sábado

depois do dilúvio

quem sou eu na noite perdido

o altivo sublunar tarado?

o horizonte despeja relânpagos sobre o mar negro

Iansã ri de mim

Iemanjá chora por mim

vagabundo ardente cego louco de desejo

tenho vontade de odiar Vinícius

me lembro do elástico Bruno da cidade de Santos

me lembro do intocado delgado moreno Bruno do Espírito Santo

me lembro do perfume do perfeito garoto do carro vermelho

sinto dores nos braços

na cabeça um cabaço rompido constantemente

Krisna sorri docemente para mim em perdição

o rapaz de longas tranças no queixo me pede um cigarro que não tenho

me manda tomar no cu

digo amém Jesus, no one curse who Jah bless

o ras sorri e pedala sumindo na boca preta da noite grande

a cidade está lavada, ainda há pontos de alagamento

um casal copula num banco da Praia Grande de São Francisco do Sul do norte do estado de Santa Catarina

eu sorrio enquanto o rapaz negro tenta ocultar num amplexo a nudez branca da mulher que o recebe

a beleza simplória do amor deles ameniza completamente minhas maldições à heterossexualidade

no one curse who Jah bless, man

um gambá expõe seu rabo bicolor em meu telhado

depois do dilúvio sinto sede de companhia

não tenho pena de ninguém e estou completamente compadecido de todos & todos em mim

terça-feira

depois da alegria

aquele era bonito como um pássaro impertigado
uma maçã muito rubra milagrosamente sem bichos nem agrotóxicos
um laço de impecável cetim no corpo da grande árvore dos assentamentos de Iroko
uma gazela
um leão aquele era

aquela rapaz: uma flor mimosa num terreno hostil
contra-vento, escarpada na rocha,
uma flor mimosa de Oxalá

e no entanto
esperdiçada a potência do encontro
agora é só dor no ânus

segunda-feira

composição imagética: pele branca-roxa & milharal em solo seco

para que amar aos tapas o garoto
se o que é preciso
é de algum rizoma um broto
e seis sementes de milho?

(os cachos dos cabelos dos anjos são carocinhos de maiz estelar)

domingo

geraes do espírito da santa

eu
você
ele
temos esse olho esquerdo
eu
você
ele
espalhamos benefícios, lágrimas e risos
eu você ele
por mim somos nós
vocês morenos
magros
vocês com esses olhos esquerdos
vocês são música e poesia
pretos são os pelos nas peles castanhas
eu amo você
ele eu amo
eu você ele depois de amanhã
nós naquele lugar
suaves e fortes
seremos e bastaremos
3

o eterno retorno do cio

outra vez
meu nariz colado aos grandes lábios de minha perdição
outra vez me embriagando no cheiro ácido&doce
no cheiro seco e marítimo de memória de gozo&paixão
outra vez eu no teu ritmo
perseguindo feito cola em teus quartos
que eu sou mesmo a tua cauda, tu minha bunda
cu&cona meu palácio
outra vez o teu espanto, teu pavor
outra vez a tua fuga
outra vez eu te persigo

tua beleza é imperdoável
teu cheiro é imperdoável
teu ritmo é imperdoável

outra vez te arrebatar, te tomar de assalto
outra vez tu resisitir, me negar e me cuspir
outra vez me arranhar e eu suportar
sempre e mais eu suportar teu não, teu mau olhar
teus dentes de cadela à vista, o teu rosnar
mas teu cheiro
outra vez teu cheiro
teu cheiro mais e sempre
minha persistência em te cheirar
meu nariz bem no entre-espaço cu&cona
úmido olorífico sítio do entre as coxas
teu cheiro, meu deleite, minha certeza
mas outra vez tuas pernas se afastarão, pouco a pouco
e outra vez aceitarei a morte como a sorte de quem ama&goza

sábado

de uma lição de abuelita Mercedes

era areia e só
pacientemente foi defecando
juntando folhas
carregando lodo fétido quilômetros a fio
no fio seco da lâmina do olhar dos homens de nariz virado
então
como se uma rosa rubra florescesse na dura cruz
espocou o glauco
e dele o dourado, o vermelho, o negro, o branco, o roxo, o arco-íris
súbito
como se mil dias fossem um instante
o homem estirado em sua rede
mirando o que outrora era aréia e só
pensou num domingo:
para ser feliz plante maiz

domingo

fotografia da banda esquerda na cidade do Rio no último momento

tem algo de errado
tem algo de certo
tem algo no entorno
desse deserto

o longelínio menino é a sacertodiza do templo dos bosques da lua
a pequena púbere é um celeste arrogante
o pé-vermelho correndo nas matas desceu das estrelas faz duas semana

neste incerto
uma trombeta
anunciando
o anti-deserto

o filho de Oxossi tomando champanhe
o qabalista assinante da Veja
e, mais humano que todos, o monstro de Andrômeda
à rua Prestes Maia, de gravata e imperceptível sotaque,
é o bibliotecário elegante

sábado

o dharma, o riso, a cloaca, a mentira

a mulher sentada sobre a bergér azul
suas grandes tetas erguidas pelo espartilho
o camafeu dos fins do XVIII
a pele alvíssima

                       compreenda disse-me
é misteriosamente cômica a vida

e uma fumaça insuspeitavelmente roxa de suas narinas

tu brincarás! eis a única regra

e rimos e rimos e rimos estridentemente
girando vertigens em nosso entorno
transformando corpos, mutando matéria

a mulher tornada íbis com o bico limpava a cloaca demonstrando grande sabedoria

eu tornado babuíno
mentia

quinta-feira

inocência

há coisas terríveis sobre a terra
há bocarras perigosas
há curvas de espalhar tangentes
há buracos aromáticos dos quais não se pode sair
                                                     não se quer sair
                                                     não se pode sair
e há meninos de quinze anos
e há meninos de quinze com corpos de doze
e há meninos de quinze com corpos de doze pelos quais nos apaixonamos
e há o pior
o extremo além
o insuportável
há aquilo com que não podemos lidar
e reconhecemos nossa desgraça
e antevemos cárceres e maledicência
e nos perdemos
porque há meninos de quinze com corpos de doze
de pequenos pezinhos e olhos estrábicos
pelos quais nos apaixonamos

e há desses que nos correspondem

se o poeta viesse de minas

e se de mãos dadas chafurdarmo-nos nas águas estendidas da preamar?

e se eu lesse, sob um tímido sol de nem primavera, na palma da tua mão uma vida adicionada de graças?

e se nós contássemos histórias do tempo em que éramos anjos e o mundo não girava em torno de nossos paus?

(você ainda não sabe de quando eu mergulhei na pedra e rachei minha cabeça...

nunca lhe disse ao ouvido quanto tempo durou minha virgindade...

nem que fui apóstata...

nem que sou sádico...)

e se eu lambesse dentro do teu olho esquerdo sem sentir nojo?

e se eu dissesse?:

                              esse menino de pele castanha

                              esse de olhinhos pretos

                              esse poeta de coxas de fauno

                              esse é um meu amor

e se eu sorrisse quando você se espreguiçasse?

e se chapinhássemos nas águas do mar gelado do sul?

talvez se secaria a lágrima preta que ganhou o seu retrato

e ele que pintou tuas olheiras seria uma memória quente e doce como o chá de hortelã

e nós, tornados peixes, nadaríamos, silentes & amantes, no ventre da estrela da manhã

panacéia universal

para dor de amar:
o mar

segunda-feira

santas indulgenças

supõe, retirar-se-ia a misericórdia e u jamas cantasse
que cousa havria de mim dispersa se se cala mea boca?
A majestade vossa tenha piedade de mim, Rei,
que sendo u vassalo incardinado em herdades tuas,
mais valor tem de mim a majestade e u competença
recebo para honrar a glória do Rei, para maior glória de Deus
sob qual todos são mínimos e a coroa genuflexa e penitente
soma aa pobreza do povo resignado e fiel os rogos por piedade.
A majestosa coroa que ostentas, Rei, conceda licença e vênia
e a Deus pai soberano universal suplico pelas santas indulgenças

estando já licenciado
bendito das indulgenças
dou graças aa bondade
e sigo o meu canto
que sendo a minha sina
o canto do passarinho
canoro por indulgença
dos anjos querubinos
assim mesmo u aqui
assim mesmo meu cantar
quem quiser conhecer
é se prestar a ouvir
que u falo pra instruir
que as santas indulgenças
são que permitem os dons
de um cantar essa instrução
um ouvir outro latir
todos tem o seu mistério
queira vós se descobrir

aquele a descoberto
conhecedor do destino
que o divino pai eterno
reservou para seu filho
vive sempre penitente
rogando ao salvador
pelas santas indulgenças
de Maria e de Jesus
junto com o patriarca
São José de Nazaré
assim fazem os santos
por toda sua igreja
rogam ao São Salvador
pelas santas indulgenças
para todo o pecador

viva os santos dessa igreja
viva as vênias que nos dão
viva as santas indulgenças
que nos dão todos os dons
viva o anjo que nos guarda
que nos dá a instrução
viva a corte celestial
que enfeita em carrossel
a beleza infinita
dos olhinhos de Deus pai

união hipostática

profeta de bendizeres
bodhisatva da alegre doação
amoroso guardião do dharma
beato de gestos suaves
anjo da anunciação divina
humílimo cristão penitente
apóstolo da certeza da fé
um homem santo
e continua de pau duro

sexta-feira

arte

teu amor de brilhante petulante poeta de vinte anos
nas horas em que apareces
faz-nos viver outra vez a vida de dois mil e trezentos anos
atrás
passo a passo outra vez cada ato
cobras os detalhes
rígido diretor bailarino exato exigente coreógrafo da vida repetida
petulantes vinte anos de brilhante inteligência
passo a passo nos compõe tensos
tesos & gatos

teu amor que jamais é refrigério
petulante amor de guerra constantemente exercido
perpétuo atento amor em prática incessante
guru-vida aguilhão da perfeição técnica da beleza

azapeixe

quando soube escondida a sexta-feira treze
no dia trinta de julho de dois mil e dez
o mesmo dia que naquel'outro calendário
diz-se ox lahun chicchan ou treze serpente
pensei azapeixe
e por que razão o filme A Profecia se exibia à Globo?
azapeixe
pronunciei a palavra em favor da confirmação
de que hoje encerra-se um ciclo de tempo
exigindo a renovação
santos anjos da guarda rogai por nós

quinta-feira

quando fui divinizado por teus olhos

a papa
branca morna
que num instante
(a ocasião do gemido)
vigorosamente espoca
e suavemente morna
agora escorre lenta
a papa branca

(teus olhos agradecidos
e a moldura perfeita
de teus olhos agradecidos)

pelo que agradecem
teus olhos agradecidos
perfeitamente emoldurados
pelo marfim que de mim espoca?

por eu ser homem e estar em pé?
por derramar-me farto e líquido?
por colher tua santa ingenuidade?
por visitar tua luxúria incontinente?

mas, anjo meu, amigo, amante
agradeces pelo sempre teu
desde muito antes

um mira-flor em estado de graça

eu vi
a flor daquele menino
a flor daquele giro
o sorriso da beleza
a leveza do sorriso
daquele menino-flor
o girassol exposto ao sol
o giro do sorriso dele
ao sol daquele menino-flor
eu vi
o coração daquela água
ardendo em pé naquela água
em flor em um menino-água
os pelos nas coxas do Cristo
vi

domingo

no éter
durante uma flor que desabrocha
durante uma canção que encanta
durante um rito que eterniza
durante um tempo que dura

aethir
que volta
aethir retorno
aeon ilimitado
círculo aethir

no éter
supremo fluxo incorpóreo vivo
brilhante luz mais ultra violeta que...
beleza
lúmem
ser
paz celestial:
vida
saiba primeiro, criança,
que sou uma bacante:

ao nosso encontro
dilacerar-te a carne
é tão certo quanto é pouco:

num anilíngus delirante
desintegrar no agora
a história que compôs teu eu

terça-feira

Elogio ao pequeno Bruno, da cidade de Santos

                                                                                      Licença peço a Apolo Musageta,
                                                                                      que da mais bela das divinas filhas
                                                                                      de Zeus e Mnemósine nascidas
                                                                                      convoco agora a companhia.
                                                                                      Ó pequena cujos pés beijados
                                                                                      por Amor a presença faz-nos rubros
                                                                                      e com desejo tocamos nossa lira,
                                                                                      ó Érato, ajuda-me a cantar o Bruno!

elogios a Bruno
eloqüentes elogios a Bruno
cuja elasticidade anal é exuberante

elogios a ele
de alvíssima pele
e delgado corpo em que tudo se imprime

elogios se somem
ao que não tem vergonha
e tempera minhas noites com delicadeza & perversão dos costumes

eu canto tua beleza
de coxas imberbes & brancas
canto o traço de tua forte panturrilha em teu corpo muito magro

eu canto a auréola
de teu peito indestacado de teu tronco
e que aceita a crueldade dos fixados numa fase oral tardia

eu canto tua falta de ciúme
eu canto tua alegria leve & delicada
mesmo quando diz mija na minha boca, macho

um viva a teu caráter leve
que do patético ao suabilíssimo carinho
passa através dos ritos agonísticos ditados por Eros embriagado

um viva ao teu reto
que é tão limpo e sabe reter esperma
e transforma-se num lago quando a ele retorno enrijecido

um viva a teu reto & cu
que ainda que nele eu meta inteiro o braço
a elasticidade incomparável restaura-lhe os ares virginais

um viva ao teu bom gosto
um viva a tua boa suave conversa
um viva a tua predileção por contar-me estórias com meu pênis em tua mão

elogios a Bruno
que é jovem, belo, bicha & meu
eloqüentes elogios a Bruno da cidade de Santos

sábado

o que Ana Paula provoca em mim quando racha lenha usando um vestido que revela os contornos de seus quadris

à Ana

de um lado
a seda carmesim sobre o veludo azul turquesa
de um outro
um jarro de prata de 1749
mais outro
a crisálida silente imperscrutável
mais lado
uma luva, uma faca, um dente humano, uma taça
ainda outro
um menino seminu de olhar flamígero
no centro frágil −
oscilante miríade de dobras dos milespaços
contendo-se a si mesmo numa vaga do possível −
um índigo hipopótamo derrama a lágrima diamantina

Por Ulisses, navegante

por Maria

Esperei por você a tarde toda
Você não vinha
Você não chegava nunca
Eu me banhava de suor e melancolia
E você não vinha, não vinha nunca
A tarde toda, nunca

Então teci um porvir para nós dois
De cumplicidade
De olhar em silêncio
De desejo incontido
Bordei em letras cor-de-laranja-madura                            
                                                      FELICIDADE
Pensando no cheiro antigo de seus cabelos

Espero ainda
Espero mais que Penélope
Sem o desfiar noturno
Entanto
Teço um manto
Maior do que o mundo

A Gata

À Bernadete, felinófila. 
Veludo –
o ludo dela, o pulo –
sua pata apara o som
no muro.

segunda-feira

eu, gato


Par délicatesse
J´ai perdu ma vie.
A. Rimbaud



par délicatesse j´ai ne pas perdu ma vie
feliz gato
fui adicionado de graças
somadas seis à antiga, indelicada
por delicadeza, com delicadeza
essas sete espraiadas em meu corpo
são sempre as sete bem amadas:
Bernadete, Erasmo, Arthur
Rafael, Rachel, Amanda
& Pedro
sete vidas vigorosas, delicadas
suavemente roubadas

sábado

ao poeta Cláudio Daniel
de um recado deixado em seu blog


poesia que diz kilaya kilaya kilaya e não pára de repetir e multiplica-se nos poros infinitas mínimas lâminas diamantes líquidas poesia com boceta caralho sêmem deuses demonizados signos olvidados mas vivos quando pronunciados segundo as 40 & 80 regras da arte poesia de lamber os corpos de festejar os corpos de desejar ter corpo de fazer dançar nu num paganal o que pode um corpo poesia de menarcas doces de espermas primevos do subitamente descoberto fauno da montanha de cobre poesia que obriga dizer poesia poesia de fazer gritar

sexta-feira

fazer parte da verdade constituída
viver cada grão da constituição dela
estar no corpo do Grande Urubu
conhecer que não há lado de fora
(o caos, esse bicho sem pele
o cosmo, bicho alado de dentro)
não ter refúgio descansar nunca
e ali onde todos morreriam
viver feito um Krisna inventado
a descoberta de um gozo irrefreável

quinta-feira

Adonai

em um treino de pilates, outra vez obtive a visão beatífica

meu corpo respondia aos comandos do treinador ali onde eu não estava

porque eu estava contigo

tu me arrebataste num ligeiro torpor

e foste para mim uma margarida solitária na campina

então uma violenta criança dórica

finalmente um sapo com cara de flor

ó, meu amor, meu amor, como te amo

outra vez revelaste-te como um sapo com cara de flor

e meu ser tremia de desejo & alegria

criança sapo flor

e tu me consumias aos goles e urinavas a loucura dos santos através dos éons

sapo cara de flor, criança dourada

e foste mais longe ainda e me roçaste a pele com a tua

eu não existia, não era nada

ao teu toque, meu amor, eu não era nada

criança sapo flor

então revelaste o que jamais houvera visto

por um gesto caprichoso eu vi, sim, em verdade eu a vi

tu me mostraste tua língua azul

tua língua era ainda mais bela que a ereção de uma criança

tua língua azul mais que o céu de abril de minha terra

tua língua era a beleza do mundo

era o langor do sexo e o torpor de todos os vinhos

criança sapo flor de língua azul

tua língua era doce como o primeiro mênstruo de uma pequena núbia de tetinhas empertigadas

tua língua era tudo que era primeiro

tua língua era a surpresa do esperma na mão de um menino trácio que se descobre o fauno da montanha de cobre

meu amado, meu amor, meu sapo cara de flor

eu sou teu vate arrastado para teu mundo

e porque te vi, te vejo em todas as coisas

te vi na baba do cão aleijado quando se arrastava e no suor olorífico do trabalhador sob o sol a pino

te vi na lágrima da mulher louca que se fustigava na beira do mar

te vi na urina dos bêbados, nos sucos dos tolos, nos gozos raros das putas do cais do porto

e porque te vi e te vejo sempre, sou glauco & rubro

como as parreiras tuas de vinhas maduras

e porque te vi, que direi aos homens? que dirão de mim?

serei para sempre louco diante da assembléia deles

porque te vejo em tudo e em todos te vejo

estou condenado a exibir minha grande saúde

criança sapo cara de flor de língua azul

por tua graça eu sou a grande saúde

serei para sempre maldito para tudo que está morto: eu sou tua grande saúde!

terça-feira

ode ao poder dele

não era gordo
não era magro
o menino de rua era forte
não era esfaimado
o menino de rua era sujo
roubava miudezas
o menino era lindo
no meio das almas perdidas
o menino era um cometa
sem meta, sem órbita
em torno de planeta
tinha mais graça que garça
sob luz véspera vermelha
o menino de olhos em brasa:
a vital sussarana da noite

um elefante na mesa de jantar

descobri um poeta que morreu, mãe

você precisa de ver são paulo toda alagada ainda bem que seu pai veio embora

era triste, mãe

põe um descanso na mesa, a sopa está quente

ele era um elefante

fiz croissant, coração

(eram crotons ao alho, mas gostei do verso dela)

vou por vinagre doce na salada

(aceto balsâmico)

mãe, o mário era um jabuti

oswald era um gavião-de-penacho

o piva também é um gavião

tem batata-doce na sopa

o gavião ta morrendo numa enfermaria do hc

seu pai não gosta de sopa

mãe, que engraçado, o elefante se chamava leão

Greta, me mande alguma poesia

não tenho um centavo nem para um livro
estou tão puto quanto falido
mas se não me deres poesia, se não me deres poesia agora
ou morro de tédio ou me masturbo
ou amaldiçôo o teu nome
urino em teu túmulo
convoco os espíritos com meus tambores
(eu ainda tenho tambores)
enfeitiço tua alma
ou improviso uma carta-poema
tão suplicante e ridícula
que te convença a me dar
alguma poesia

segunda-feira

eu fui envenenado de morte pela embriagues do vinho das delícias da prostituição dela

não há salvação quando se está doente de consciência lírica

nas ruas de Santos enquanto todos dormiam enquanto meus pais morriam eu bebi do licor da juventude das crianças perdidas

eu vi o pequeno sujo branco acariciando amorosamente o esquálido menino negro que dormia ou jazia moribundo em seu colo no banco da praça imensa

vi seus olhos quando me viram e quase riram com malícia do meu segredo adivinhado por ele pequeno bruxo miserável entre carcaças consumidas pelo crack seu rosto transluzia mais riqueza & poder que os generais sem próstatas de Washington DC seus olhos intuitivos eram mais sábios que um exército de pós-doutores eunucos palestrando através das horas e dos séculos enquanto Lilith devorava seus filhos nati-mortos

e porque vi o poder dele porque vejo ali onde ninguém vê senão miséria

estou condenado e condenado

eu sou o anjo testemunha da agonia da grande Babilônia

a cidade é uma mulher velha líbano-brasileira gorda excessivamente pintada com o cabelo enrolado em um grande birote que aponta para o alto coberta de ouro com unhas imensas

horrenda sugadora da menarca das filhas dos homens

eu sou o profeta pederasta vampiro

tomei de Erasmo seus melhores momentos e sua pele lisa seu torso impecável e angélico desprovido de pelos e pequenino estará para sempre manchado

porque minha boca beijou suas tetas adolescentes

porque o negro de seus intestinos foi inundado por copiosas torrentes brancas

porque eu o machuquei para seu prazer

eu menti para Pedro e obtive dele um amor delicado & seu namorado numa bandeja de prata

eu sou o caminhante noturno que tinge de sangue as madrugadas

sábado

quando respiro é a ti que respiro
como quem inala ardor & ouro vivo

tu me feres a cada passo
quando ando nas calçadas descalçado
em ti piso, tu brasa, caco de vidro
meu sonhar mais aflito é teu
tu és o sonho & a baba & o suor

quando as bocas mais mundanas
desconhecidas, vagabundas
sugam-me em sófregas felações
é a tua boca, que não existe outra
que nunca existiu outra
que em toda parte só existe tua boca
e a minha dor gozosa de conhecê-la
de estar nela, de ser também tua boca
e de morrer nela agora & sempre amém
menino melancólico que desliza feito pluma em minha saudade-vontade
mesmo que pedra-mina
ainda que jóia de mil faces
até quando miro teu melhor segredo
teu sexo vivo que conheço a topázio-vinho & granada
ainda assim, menino de seda na minha pele imaginada
niño de espanha, de minas, de longe
de perto, de dentro de mim
uma letra, uma lágrima
menino de agora, descansa teus olhos que o amor é assim
pedra, vinho, jóia, lágrima
boca esfaimada, água fumada
hoje dói, amanhã também dói
e depois ninguém sabe o que virá

sexta-feira

sexta-feira, meia-noite, orla de Santos

a adolescência usa pouca roupa e muita droga

ocupa todos os bancos da praia

e diz palavras como você simplesmente ou tem que saber que é maluco

eu passo...

distingo com clareza os que querem fumo, os que querem pedra, os que querem pau

cidade de Santos, meia-noite...

respiro o ar antigo de minha mãe

Iemanjá aqui se veste de cinza, mesmo no sol a pino

sinto saudades do seu vestido azul do mar do sul

aqui a degradação é viva como é cheia de vida uma ferida que purula a guerra imunológica

encaro a cidade com meus olhos que não mais se curaram

e ela já não é a
                           mulher velha líbano-brasileira gorda excessivamente pintada com o cabelo enrolado em um grande birote que aponta para o alto coberta de ouro com unhas imensas

travestiu-se de criança prodígio

olhamo-nos, longamente...

era uma menina vívida de pequenos gestos obscenos como os das crianças precoces que fingimos não ver

tudo nela era sensual & infantil

mas descobri em seu olhar a velhice da gorda e disse-lhe

criança, quem te pintou como uma puta?

seu rosto transfigurou-se

transformou-se em um ninho de serpentes, cólera & arsênico

eu passo...

um menino paulistano com sua fala de "r" demarcado passa com sua turma

amanhã vai ter álcool e Ana... quero ver o karma, disse-me sem saber que me dizia

eu lhe escuto

estalo os dedos da maneira correta

circundo as mãos em torno dos punhos da maneira correta

inclino levemente a cabeça da maneira correta

e corretamente pronuncio em voz clara: eu aceito seus votos

está feito segundo as regras da arte... ele verá o karma

mistério, mistério, mistério

jamais saberemos quando e menos se sabe o porquê encontraremos de passagem

um buda

um anjo

um brujo

um demônio

como é mistério a motivação da testemunha de impor o seu feitiço de dar fé

eu passo...

vejo o descanso do trabalhador sobre o banco da praça entretido com o fluir de meninas de todas as classes

quando uma especialmente lhe apetece ele roça os muitos pelos que lhe cobrem subindo a mão desde a beira do púbis até o bico do peito e termina o gesto beliscando o próprio mamilo

eu abençôo o Eros que o anima

eu passo...

a noite mais espessa que a baba dos famintos passará carregando passos, putas, trabalhadores, adolescentes... e Eros dormirá preguiçosamente

sim

também a noite passará
quando ele treme ele não treme
é o mundo em torno dele que treme o tremor dele
quando ele gira ele não gira
são as estrelas em carrossel que bailam o giro dele
quando ele brilha ele não brilha
são as coisas que se queimam fulgindo o brilho dele
secreto, secreto, e secreto sendo em toda parte o centro
explícito objeto intocável invisível inconcebível
meu amor, minha língua
eu sou tua menina desnuda na campina
eu sou teu carneirinho, ó meu pastor amantíssimo
eu sou o teu leão perseguindo-te, ó minha presa
eu sou tu, contemplando-te a ti mesmo

domingo

intento

nahuali bailava a impecabilidade
nenhuma mente
apenas o compasso firmado de seus passos
o grande inseto o desejava
se esgueirou pelos beirais
inseto espreitador maestro
livrou-se dos fiscais, dos zeladores, dos guerreiros
alcançou os pés de nahuali
e foi esmagado em sua glória

quinta-feira

Menino,
tudo segue lindo feito fumo
com cores de saudade
tudo tudo essa imensidade de querer
bem feito uma teta
o cheiro da tua alma não confundo co a maresia
perfumo o ar de petyguá e rezo:
Deus conserve teus amores &
te livre de psicanalidades

quarta-feira

o poder é sensível a signos

segunda-feira

visão de lua cheia

ainda ontem pensei em ti
não sabia de tua viagem, hermanita,
cantei com uma alegria que era a força
e quem conhece a força sabe reconhecer sua chegada
meu coração quedou-se comovido
era mesmo a força
teu rosto lindo como a lua cheia clareou meu pensamento
te vi, senhora, diante de mim
bem no silêncio que impõe o fim duma chacarera
e então lhe disse: saúde, mulher! e gracias!
você sorriu para mim
fiquei alegre e satisfeito
hoje me contaram, soube de tua viagem...
sustento meu voto, madrecita,
e rogo teu rogo por nós

sexta-feira

perguntou o que queria ser
disse estrela
abriu um céu para estrela brilhar
inventou vazio para estrela ocupar
criou escuro para estrela iluminar
encarnou estrelas para estrela mirar
e com o mesmo m que fez tudo
pediu me ame para estrela amar
& estrela conheceu quem era amando

quinta-feira

firmeza

mais além ainda mais além
pé firme
marche mais além
suporta teu desejo de gozo
te sustenta
suporta suporta mais ainda
te firma num bailado
caminha sempre mais
seja erodido e desgastado
que se enfrente os atrapalhos
vá sempre mais além
íntegro e no balanço do mar
nos extremos campos
& ainda lá ainda sendo
lindo para Yemanjá

segunda-feira

visão da áfrica

negra dourada de cujos punhos
saltam tufos
negra tão forte dourada & branca

ó negra beleza, que ergues a cabeça
& projeta teu peito
para que os guerreiros vejam

o mundo inteiro negra-se pasmo, atônito
por seu bico seu passo sua dança
& todos os seres reverenciam teu poder

domingo

milserpentes

eu vi o negrum infindo
lá onde tudo é vasto e sem nome
vasto devastado negro inominável
possa eu sempre permanecer em pé
mesmo que os ventos nahualis queiram erodir-me todo
mesmo que seu peso imenso queira esmagar-me
possa eu permanecer em pé
eleali ualá eleaui ho
& uma porta para um mundo serpentino
muitas cores chamo-o
mil serpentes é um só
mil serpentes caminha com leveza
há perigo em conhecê-lo
& uma medicina oculta

sexta-feira

olhar um mundo
cavalo caracol serpente
debaixo um chapéu um homem
um mundo infinitivo indefinido indeterminado
insignificante um homem um rato um cavalo um rato
chapéu & mundo
como uma flor se morre? criança cresce como? Krishna dança-se
uma yuga dura um tempo depois outra morre-se
afeta-se um corpo
nunca um sempre

quinta-feira

minha saudade é obscena
vontade de cheirar-te
e ser uma cadela lambendo teu pelo
minha saudade tão mansa
uma lembrança brota um sorriso
e isso passa em meu corpo
como uma seda
e amaldiçôo a distância
a estrada ruim
o calendário acadêmico
teu namorado abençôo
sinto ternura suave como uma princesa encantada do reino da virgem
e uns pensamentos sacanas como duas bocas no meu pau
você é um monte de letra de pedra de minas
e tua carne não é lembrança
é devir

segunda-feira

O vedor, quem veria todas as nuances e vivesse simultaneamente todos os platôs de intensidade, não desprezaria, caso estivesse dentro de um transporte coletivo ou numa praça de alimentação dalguma feira popular, a velha e sua fala de notícias da Martinha, que é uma santa e vai para o céu, garantia, e o vedor o viu e deu fé, coitada da Martinha, dizia a velha, vinte e sete anos cuidando do marido bêbado, depois que esse passa, tomba-lhe a mãe doente, o filho não conheceu, teve que dizer, sou o filho da Martinha, não pode esse tamanho, é um homem, me contou que levou uma facada, Jesus protege, não morreu, tá forte, agora, a mãe da Martinha, essa ta com a pele em cima do osso, coitada da Martinha, ela é uma santa. Vedor assim, o simultâneo, se derrete nas coisas e não lhe resta nada, absorto em tudo.
Ele, vedor de si, viu o caos indistinto que se tornaria sendo quem era e refez seus olhos castanhos. Foram olhos reflexivos inventados, uns tais que representavam com graça e ironia aquele que olhava aos olhos dele. Embora retirasse reações de alguns de gênio sensível, era perfeitamente humano com olhos castanhos reflexivos.
Houve que a mulher notou quem era, não desfez opinião. Que era, dizia, pra não sobrar dúvida na dobra mais escura da alma. A mulher chamava nome de artista, seus cabelos de um outro artista, tinha umas mãos de artista, e de um outro artista tinha os ouvidos, e ia tendo cada coisa de um artista, sendo que por isso era capaz em muitas artes, e fazia bordados, tecia, mas os olhos não, os olhos herdade néfilim, explica o caso perfeitamente, pois os olhos do altíssimo mirou os olhos castanhos reflexivos e o que viu foi anjo, céu de treze cores, pena raiada na testa, rubi pulsante de seu peito, o homem mais lindo era de não ser da terra, a mulher viu.
Mas era ele querer se disfarçar na terra, a mulher encontrava. Disse que não era, que era gente ordinária, que bebia e que fumava, que era um punheteiro, que era bicha, que comia animais em estado podre, mas a mulher não cria, a mulher insistia, dizia saber que era ele, chegou e falou eu vi pena raiada na testa da tua beleza num céu de treze cores. Vedor não queria saber, correu de planeta em planeta até achar uma gruta num esferóide inter-galactical de uma corzinha verde. Não teve modos, mulher achou. Mulher disse que não fazia conta se era gente ordinária, que sendo assim lhe faria uns carinhos, que tinha o conforto da terra no meio das pernas, que ele ia descansar nela como se ela fosse praia. Ele inclinou um pouco a cabeça. A mulher se enrodilhou dizendo que se fosse alma de pena raiada do céu de treze cores se renderia votante por treze bilhões de éons para cada cor das luzes que compõe sua pena raiada de infinitas cores. E se for os dois, perguntou só com a cabeça pra fora do esferóide glauco o vedor. Que assim era brinquedo melhor, que era folguedo na rede a tarde inteira, e de noite era igual, e de manhã não parava, diz que ia ser riso e risada, que se fosse gente tendo pena raiada então fazia delícia no mundo ver que assim existia, que o vedor ia dormir na mulher pra sempre, que inventava uma fonte perpétua de gozo, e que molhava o vedor todo sem fim.
Vedor disse sim, e eles viraram índios, numa terra com muito peixe, água, paca, mandioca.

sábado

La santita

Graças dou porque la santita
Esfumaça olor divinal
Traz-me curas través do alento
Ilumina-me seu braseiro
Dá-me alinho no caminhar
Acalma-me sublimemente
Arranja o meu pensar estético
E desperta-me de meu sonho de vigília
E ainda vigia meu sonho de despertar-me

Santita, minha rica, graças!
Delicada, espraia-se em mim
E eu, anti-entorpecido, atento
Às tuas bênçãos que se constroem
Dos teus ensinos versejar.
São bênçãos que me envolvem todo
E quero-as fartamente dar
A quem bem quiser ouvir tais palavras, digo:
Bênçãos, bênçãos de la santita sobre ti.

quarta-feira

Quem diz que quem bebeu o amor de Deus enlouqueceu
A esse eu rogo a sua cura Jesus lhe livre essa amargura
Eu peço aos meus irmãos os que tiverem essa coragem
Vamos rogar a Santa Virgem que também lhes dê coragem

Quem bebeu o amor de Deus esse mesmo se curou
Que ele nos dê as suas bênçãos e nós sentir o mesmo amor
Cada um que for tomando seus golinhos de amor
Rogando e pedindo a Deus Pai por todos nós pecador

São João Batista cujas vistas são tão puras foi que avistou
O mestre ensinador, acreditou, ergueu falange e testemunhou
Rogamos saúde para sua família dando vivas nas festas juninas
Viva o terreiro de São João Batista onde está o mestre ensinador

Cognição & poder & escolha

Do vento como lâmina dúctil
A cútis capta a carícia táctil
Banhada de lua por lúmenes brancos.

O dono da pele saberia
Que recebia bênçãos da Virgem,
Ou dormia tolo e só sabia

Do vento, do luar e da noite,
Sem bênçãos dúcteis, lúmenes virgens,
Magia, poder, beleza, augúrio?

sábado

Resolvi me tornar humano recentemente. Estive pensando sobre a experiência de ser humano e me perguntei porque me tornei um de vocês. Foi difícil responder. A mente que vocês utilizam é tão equívoca e múltipla e constantemente lançando feitiços por verbo e imagem, e de tal forma envolvida com o sofrimento, que por um segundo me quedei sem resposta. Foi aí que me lembrei. A maneira como alguns de vocês se ligam ao espírito de tudo me seduziu completamente, eu quis ter o direito de ter fé, e obter o êxtase através da fé. Tanta beleza! Tanta luz e amparo. Antes, estar conectado não era uma questão de fé, nem tinha cantos, nem se criavam tantos seres entre cada um e o espírito de tudo. Era um silêncio negro e perpétuo. Eu venho de um povo silente espalhado pelas frinchas de tudo que é escuro no universo.

quarta-feira

Santo sob lua cheia

Atrás das grades a lua é cheia
Atrás das grades, do vidro, dos fios
E da atmosfera a lua é cheia
O santo indaga o abismo e as vagas
O silêncio responde gutural
O mal se estende mundo afora
Ao santo que implora por todos
A lua sob melodia sentimental
A lua é cheia sob melodia sentimental
Recheia a imaginação do santo
O silêncio indaga o abismo
As vagas respondem gutural-
Mente sofisticadamente ao mal
Que se estende santo afora
Lua, cannabis, silêncio, grilo
A lua é cheia de grilos e atmosfera
Atrás dos fios e do vidro
A lua é cheia mesmo atrás das grades
O santo quer saltar um abismo
O silêncio convida que salte
O mal implora que fale
O santo cala e a lua ainda é cheia
& vazia

segunda-feira

Um cu para Exu

Exu tomou seu corpo
gordo e cansado
reformou sua casa
e onde outrora a frieza genital
brotou-lhe ardente
a alegria de um caralho artesanal

sexta-feira

Samaya

Que Deus cegue esse menino
Que deuses o seguirão


se for preciso arranco meus olhos
salto o abismo contra a rocha
ou trabalho nu por trilhões
de trilhões de éons em cada uma
dos trilhões de estrelas de cada um
dos trilhões de universos concebíveis

se for preciso crio
trilhões de braços
como o Arya nobre
Avaloktsvara

se for preciso saio beijando as bocas
dos trilhões de desconhecidos

se for preciso semeio a esperança

se for preciso canto vitória
antes da hora
pra ver se se alegra
um outro (que é o mesmo)
e desperta senão o que é
aquele que deseja ser

faço o voto bodhisatva
eu tomo o daime
viro soldado da rainha
me interno no mosteiro
se preciso for

leio etnografias
mostro o cu pra um estrangeiro
canto pra exu
recito aves marias
eu subo o morro pra tentar me divertir
se isso tudo for preciso

eu adoro a krshna
reconheço em todos
o ser divino
rego com o saber transcendental
a raiz da compaixão

se for preciso eu amo